A minha
quarta-feira-ponto de encontro (acho que mereço uma pirâmide de cristal numa caixa de veludo azul) acabou por se transformar numa das noites mais surreais de que há memória. A verdade é que eu já devia saber isto à partida, tendo em conta que fui aos anos da
i conhecendo presencialmente apenas duas das pessoas que lá iam estar. Descendo às 17h30 do autocarro começa a corrida para ver o Dave e a T. antes do jantar. O primeiro ponto de encontro é o colombo. O Dave diz-me que já não tenho tempo de ir deixar a mala a casa dele se me quero estar na baixa às 18h30, e acrescenta que a mala está leve e não se importa de a levar (este momento vai ter soberana importância no desenrolar dos acontecimentos). Primeiro constrangimento do dia: deixar a pessoa que me ia ceder sofá e tecto carregar sozinho a minha mala até casa. Enquanto ele comia um McFlurry (voltei a resistir à tentação do demo) fui trocar de roupa na casa de banho do centro comercial e sim, é coisa para uma pessoa se sentir num filme de espionagem. Despedimo-nos e voltei a entrar no metro a caminho da baixa, para chegar 15 minutos depois da hora combinada. Nos armazéns do Chiado (volto a resistir ao McFlurry) vejo a T., e dois anos depois da última vez que estivemos juntas parece-me tão mais bonita e cheia de vida. Mas este speed dating também tinha os minutos contados, e eis que recebo uma chamada da aniversariante. Já não tinha de encontrar o restaurante sozinha com as indicações estranhas do google maps - o que não significa que tenha sido simples dar com o local. E foi no Castiço que os bloggers do gang se reuniram pela primeira vez em corpo e deixaram de ser perfis para se tornarem pessoas. Quem estava à mesa não deu conta do cair da noite, e o tópico da gastronomia passou pela forma fálica das alheiras, batatas pontiagudas (um àparte: estavam pontiagudas sim, mas tenho um enorme respeito por restaurantes que não servem batatas pré-fritas), calamares e a designação técnica de peixes em geral até à descrição de como é maravilhosa a bosta mirandesa. A noite continuou pelo Miradouro de Alcântara, local que ficará marcado na minha memória como o sítio onde a palavra
meita integrou o meu léxico. A tour continuou pelo bairro alto (que tristeza ver todos os bares a fecharem portas às 2 da manhã), conversas à beira rio e pão com chouriço. Chegada a hora de recolher, o plano era simples. Apanhar um táxi até ao Camões onde ficaria o resto do pessoal, seguindo eu para o meu sofá em Benfica. Liguei para o Dave para não o apanhar desprevenido, e o telemóvel tocou e tocou. Eu insistia, mas resultado.
- Como queres fazer?
- Ligo outra vez e apanho o próximo táxi. - Continuava a chamar. "É impossível não ouvir. Tenho de continuar a tentar. Oh meu deus, estão todos a olhar para mim."
- Mas sabes onde é que ele mora?
- Não... - Momento de pânico ao pensar que não podia ir para Benfica enquanto me interrogava se por intervenção divina haveria alguma pousada perto. À quinta tentativa estava a tentar não perder a esperança.
- Podes ficar lá em casa. - disse o
Maia. "Ai que vergonha. Conheço o rapaz há meia dúzia de horas. Dave POR FAVOR atende. Ai que vergonha." Pela oitava tentativa tive de encarar a realidade, o telemóvel não ia ser suficiente para o acordar.
- Mas não há problema? - Disse-nos a morada, e entrei num táxi com as meninas. Depois de 5 minutos à espera que as luzes se apagassem para poder ligar o carro, arrancámos pela marginal enquanto a i ia fazendo de guia turístico. Elas ficaram entregues, e segui sozinha para o Estoril, com um taxista sem GPS.
- Pelo que a sua amiga disse a rua devia ser por aqui.
- Pois... ah... não faço ideia. E não estou a ver nenhuma placa com o nome. - Mais uma volta, e entrámos na rua da GNR.
- Olhe, vou ali perguntar. - "Ai que vergonha! Ai o taxímetro!" Passado um bocado o senhor taxista volta e diz que existem duas ruas XY. - Qual é que é? - Mais uma vez não fazia a mínima ideia e tentei ligar. O telemóvel chamou durante um bocado sem resposta. "E agora? Vou perder os meus órgãos e acordar numa valeta". De repente, resposta do outro lado da linha e, como oásis no deserto, cheguei ao destino com mais vergonha que sono. Acordei ainda cedo, e ouvi vozes na casa, mas preferi fazer-me de morta a passar mais constrangimentos. Com um pequeno conflito de horários, o Francisco acabou por ser o meu babbysitter na capital (pela paciência de santo agradeço sinceramente) e fico a dever-lhe o rim que pude manter por me ter dado tecto.