Por esta altura estão na moda os festivais de verão. Mira de Aire não quis ficar para trás nesta corrida de popularidade e por uma quantia consideravelmente inferior, poderiam ter presenciado um corte de electricidade que, apesar de ter durado quase uma hora, não obrigou ao cancelamento de nenhuma banda (sim Alive, isto era para vocês). Além do mais, nem era preciso acampar de véspera para conseguir estar na primeira fila, bastava chegar com uma hora de atraso. Contudo, a falha talvez fosse o menor dos males. Deu-se quando um garoto, que se fazia acompanhar por dois rapazes a tocarem concertina, fazia beatbox e estava prestes a fazer o seu solo (não se alarmem, ele continuou a actuação para o final da noite). Lusco-fusco, ânimos à flor da pele e uns litros de álcool extra vendidos depois (talvez tenha sido uma manobra propositada para as pessoas consumirem mais) a electricidade é reposta. Depois da actuação de mais uns moços da terra, vem aquela fenomenal banda de covers que dá pelo nome de Banda Red. É o trio mais saloio de que há memória. Começam com a música do Dartacão (o pessoal até acha piada a esta parte), mas depois continua com medleys intermináveis de pequeninas partes de músicas conhecidas. Uma espécie de manta de retalhos musical muito mal cosida.

Quando perdiam a cabeça e tocavam músicas com mais de um minuto de duração, faziam paragens à la "nós somos os artistas agora esperem". Caso fosse uma canção que o público continuasse a cantar aquando das aborrecidas pausas, retomavam de onde tinham parado quando podiam aproveitar o entusiasmo das pessoas e não contribuir para a sua quebra.
Foi no meio deste concerto, que ao aproximar-me dos meninos com uma bifana na mão, reparo que um elemento estranho ao grupo está a olhar fixamente para mim com um riso afectado que diz "I'm too sexy for my shirt". Sem saber sequer que eu conhecia as pessoas com quem estava, diz-me:
Right Said Fred: Tás com fome? Não comeste bem ao jantar? - Com toda a compostura que alguém pode ter a tentar dar uma trinca numa bifana sem ficar com o bife inteiro a servir de babete, perguntei se alguém era servido e deixei-o continuar. - Como é que te chamas?
Eu: Débora.
Right Said Fred: Débora? Então és boa pessoa. A minha irmã também se chama Débora. És daqui não és?
Eu: Porquê?
Right Said Fred: Tens cara disso.
Eu: Não.
Right Said Fred: Então és de onde?
Eu: Adivinha.
Right Said Fred: És daqui de perto. Tens cara disso. Alcanena?
Eu: Não.
Right Said Fred: Então és de onde? - Comecei a rir-me enquanto mastigava a comida e a fazer gestos para ganhar tempo enquanto pensava qual a terra de onde me apetecia ser. - Mais para norte ou mais para sul? - Abanei a mão para cima.
Eu: Porto.
Right Said Fred: Não és nada. Não vinhas do Porto para aqui.
Eu: O São João já acabou. Agora ando atrás das festas.
Right Said Fred: Não tás a falar a sério. - Ar de quem já me topou: - Então és de que zona do Porto?
Eu (semblante sério pela primeira vez, como se a minha vida dependesse daquela verdade): Rua do Campo Alegre, na zona da Boavista. - Ficou a olhar incrédulo. - Fica perto da Casa da Música...
Right Said Fred: Ah... não conheço.
E apesar de haver quem não concorde, gozar com as pessoas sem que elas se apercebam para mim é uma arte. Não tenho interesse em humilhar ninguém, nem fazer com que se sintam mal, mas dar tanga a desconhecidos que se acham os maiores sem que dêem conta (independentemente de também estarem a gozar comigo ou não), é coisa que me dá um enorme gozo. Mas como o karma não tarda em manifestar-se, no final da noite chega a minha paga.
PA: Posso contar-lhe da aposta?
Eu: Qual aposta?
P.: NÃO!
Eu: Qual aposta? - O PA sussurra ao ouvido da mulher a aposta e pergunta se acha que eu fico ofendida.
P.: Epá, não faças isso!
Eu: Qual aposta?
PA (nada convincente): Que no final da noite íamos ao Papagaio. - A "discoteca" de Mira de Aire.
Eu (comecei num loop qual criança de três anos): Qual é que era a aposta? Qual é que era a aposta? Qual é que era a aposta? Qual é que era a aposta?
PA: Diz-lhe lá. Ela não se vai calar.
Eu: Qual é que era a aposta? Qual é que era a aposta? Qual é que era a aposta? Qual é que era a aposta?
P.: Cala-te!
Eu: Então diz-me qual era a aposta! Qual é que era a aposta? Qual é que era a aposta?
PA: Olha, eu vou-lhe contar.
P. (chateado): Não faças isso.
Eu: Qual é que era a aposta? Qual é que era a aposta?
PA: Ela não fica chateada. Eles apostaram 10 cêntimos em como te conseguiam apalpar as mamas. - Aposta que foi sendo duplicada e que por esta altura ia já em 80 cêntimos. Fiquei desiludida. Estava à espera de algo mais radical. O P. acabou mais envergonhado do que eu ofendida (se bem que 10 cêntimos... olha a auto-estima a chegar ao centro da terra), e acho que me devem um favaios cada um por serem piores que as alcoviteiras. Tenho dito.