Há textos que nos fazem pensar e
este é um deles.
Estágios curriculares. Depois dos últimos seis meses acho que já posso tecer o meu parecer sobre a matéria e de certa forma desculpar-me por o ter feito para terminar o mestrado. Se tivesse caído na ilusão de tentar agarrar alguma coisa na área já depois de canudo na mão não sei até que ponto esta não teria sido uma das tentativas feitas.
Nestes casos, além do facto de se ter recursos ou não, está em causa a ética (e não sei até que ponto legalidade) das empresas. Por Portugal, pela quantidade revoltante de anúncios que aparecem no carga de trabalhos e sites do género a pedirem estágios curriculares não remunerados, acho que está a aumentar o princípio de ter uma parte substancial da equipa de trabalho de borla. Querem trabalho sem terem de o pagar. Seria o equivalente a querer contratar uma mulher a dias mas dizer "olhe, como não conheço o seu trabalho, fica à experiência durante 3 meses e depois pode ser que a contratemos", e no final do tempo de teste substituem-na por outra que mais ou menos bem desempenhará as mesmas funções. E sinto que me mentiram. Que os meus avós queriam que eu estudasse porque isso me garantiria um futuro, mas esse era o futuro de antigamente, quando a maioria da população era iletrada em vez de licenciada. Eu sou pela educação. Nunca há demasiada conhecimento para uma pessoa. Mas esse não parece ser o caminho para a estabilidade.
Se desemprego é uma realidade, a exploração que dá a ilusão de uma oportunidade pode ser ainda mais asfixiante. Os estágios curriculares trazem sempre encargos (existem no mínimo despesas de deslocação). E sem qualquer apoio, com a mesma facilidade com que entrámos voltamos à estaca 0. Isto leva a pessoas a quererem uma oportunidade, a esforçarem-se tanto ou mais como os trabalhadores "oficiais" de uma empresa e a não receberem sequer um agradecimento por meio ano dispensado a ajudá-los a crescer. Mas quando não há uma aposta nos recursos humanos, esse crescimento não pode ser linear. A constante troca do staff provoca instabilidade que se reflectirá no produto final. O que gera um crescente ciclo vicioso: as empresas em crise não contratam -> as pessoas não têm emprego* -> sem emprego não há dinheiro -> sem dinheiro não há poder de compra -> sem poder de compra as empresas ressentem-se -> não contratam pessoas (o que afecta o produto final) -> e damos assim a volta à marmota que fica mais mirrada a cada dentada.
As máquinas sozinhas não trabalham, e no que toca a trabalho criativo (mesmo que ultra-limitado por regras sem sentido pré-definidas) não há duas pessoas iguais. Muito me surpreenderei se quem opta por esta estratégia conseguir singrar.
*distinção entre emprego e trabalho uma vez que os estagiários trabalham mas não têm trabalho no sentido de emprego.