Tentei ter um bocado de quality time comigo mesma já que sinto ter cada vez mais jeito para me relacionar com os outros. Esta busca de sossego e dum ponto de fuga acaba na compra de um par de botins - lindíssimos, terciopelo azul - e uma conversa estranha/ sinistra/ constrangedora nos jardins do Palácio de Cristal com um senhor que aparentava os seus 60 anos.
A ideia inicial ao deslocar-me até aos jardins do palácio era andar um pouco e eventualmente descansar o meu traseiro em algum canto a ler um pouco. Estava a tirar as minha fotos à turista quando o senhor me aborda.
Senhor: Quer que lhe tire uma foto?
Eu: Não não, obrigada. - Deu uma volta de 45º. O movimento da minha perna dava indicação que eu me estava a afastar, mas o senhor prossegue a conversa.
Senhor: Tens uns olhos tão tristes! - Olhei um bocado em choque para o homem.
Resposta mental: Oi?
Senhor: É uma questão de afectos?
Resposta mental: Se eu o empurrar com força suficiente será que ele chega ao Douro?
O senhor tira o jornal debaixo do braço, pousa-o no banco. Ao lado pousa a revista que vinha dentro do jornal dobrado.
Senhor: Senta-te um bocadinho!
Resposta mental: O que é que se está a passar?
Senhor: As personalidades das pessoas são diferentes. Não há duas personalidades iguais. E varia com as mentalidades. Os homens sofrem do complexo de Édipo... sabes o que é? - Acenei afirmativamente enquanto pensava "What... The... Fuck!" - E as mulheres têm o complexo de Electra. Todos precisam de afectividade. Mas os homens põem a sexualidade à frente da afectividade. É por isso que podem estar com várias mulheres diferentes. As mulheres põem a afectividade à frente da sexualidade. E acham querem imitar os homens, por isso andam com vários. Mas as mulheres não podem fazer isso. Porque vai contra a personalidade delas. - Mentalmente enterro a testa no meio das mãos. Depois de uns 10 minutos monologando sobre este tema, tenta adivinhar a minha vida amorosa/ sexual. - Mas o que te fizeram? Relacionaste-te com alguém que não te respeitou? Sabes o que quero dizer com isto, não sabes? - Devo ter feito um ar de loira confusa. - Não esperou por ti? Não tiveste o orgasmo? - Mentalmente escavei um buraco e enterrei-me viva ali mesmo, naquele bocado de chão. - Queres libertar-te? Não podes andar com outros rapazes! Se te queres libertar, tens de tirar um tempo, o mais curto possível, para voltar a gostar de ti. E depois disso voltas a tirar tempo para te projectares em ti. Conheceres-te. Saberes o que gostas, masturbação e essas coisas que tu sabes. - Neste momento o buraco onde me enterrava viva no pensamento anterior chegava ao centro da terra. O calor era intenso, e havia algo errado com as ondas magnéticas. - Depois podes fazer projectos. Mesmo que não sejam reais. - Portanto, a solução do senhor para os males da humanidade é... ter sonhos irrealistas. Bravo. - Mas tens de começar por gostar de ti. Os teus pés, a tua vagina, a tua barriga, os teus peitos, os teus olhos. - Por esta altura o buraco que se abrira até ao centro da terra ia já no Japão. Ouvir a palavra vagina de alguém com mais de 40 anos é um mal apenas remediável com seppuku. - Posso dar-te um beijinho? - Agarrou-me com uma força horrível e deu-me um beijo na testa.
Eu: Tenho... de ir andando...
Senhor: Posso desejar-te felicidades?
Eu: Sssssim...???
Senhor: Posso dar-te outro abraço? De vez em quando todos precisamos.Eu: Ah... não... obrigada. Tenho de ir andando. Boa tarde.
Eu sei o que toda a gente estará a pensar. Mas não consigo simplesmente mandar alguém à merda e virar costas.






