domingo, 27 de junho de 2010

Salvem a minha alma

Falta uma semana para o tão aguardado evento que é a crisma da minha irmã (era um comentário irónico para quem não detectou este elemento). Como excelentíssima madrinha (à força) disse logo à garota: "eu posso ser tua madrinha, mas não vou a reunião nenhuma". Este fim-de-semana quase choraminga a implorar que eu vá à reunião de domingo, a última antes da celebração do final da caminhada catequética (ou caquéctica como chegaram a escrever num daqueles papéis que enviam a informar os pais das actividades). Insisti que não, mas a garota leva sempre a melhor. Acabo sempre por lhe fazer as vontades. Nisto acompanhei-a à igreja. Se já não estava a achar a piada aos calafrios que me percorriam a espinha ao descer aquele corredor onde não passava há vontade há uns seis anos (desde a minha própria crisma), mais constrangida fiquei quando a minha antiga catequista passa pelos bancos dos padrinhos, vê-me, dá um passo atrás e chama o meu nome, fazendo com que todos me fitasse como uma extraterrestre. Continuei a sentir-me bastante alienada quando o padre (não confundir com "O Padre") nos chama a outra divisão (chamam-lhe cripta, mas para mim é o sítio onde em pequena desenrolava as rifas da quermesse). No percurso percebi que não estava só quando ouvi alguém proferir um "lá faz eco, pode ser que não se perceba o que ele diz". Deparamo-nos com cadeiras dispostas em círculo em torno de uma mesa com um portátil e um projector. O senhor prior tinha algo para nos mostrar, e poderia ter saído dali mais cedo, não fosse um outro padrinho fazer questão de intervir a perguntar os critérios essenciais para se poder ali estar, uma vez que variam de freguesia para freguesia. O padre - que parece mais grisalho e mais baixo desde a última vez que o vi- responde que os direitos canónicos são universais válidos tanto na China como na Ásia, mas que sim, há critérios que variam. O padrinho que se quer fazer notar continua a mandar bitaites sobre como temos de ter certos comportamentos para podermos enquadrar-nos na religião. É então que o senhor padre compara a igreja ao Benfica: se quero ser deste clube, também tenho de ter certos comportamentos. O senhor a quem já me apetecia dar um par de estalos continua a dizer que há muita coisa errada com a igreja, ao que o padre responde com um dos seus clichés "a igreja sou eu e tu". E começa todo um discurso sobre a responsabilidade de ser padrinho. Padrinho de casamento qualquer idiota pode ser. É uma testemunha, tem de lá estar fisicamente e dizer "eu vi". Padrinho de crisma ou de batizado tem de viver dentro dos conformes. Após a discussão, percebemos então o porquê do projector. O senhor padre estava prestes a mostrar-nos um diaporama - para quem não sabe é o termo usado para diapositivo pela igreja. Ficámos 15 minutos a olhar para um daqueles powerpoints que todos já recebemos uma ou outra vez com "mensagem inspiradora" e música de fundo de testemunhos de vítimas de violência doméstica que vão aos programas da manhã.
Se isto já era mau, o que me apanhou de surpresa foi quando já estava eu pronta para sair porta fora, o padre dizer "para terminar vamos rezar um pai nosso e uma avé maria". Uma espécie de fúria apoderou-se de mim. Estou no meio de uma seita! De cabeça baixa (não sei se não fingir que estou interessada em rezar é um pecado capital) e sem mover os lábios dei por mim a pensar "como é que era mesmo o pai nosso em espanhol?".

2 comentários:

  1. fingir que se reza é ir pró inferno
    sem passar na partida e receber 1500 euros
    agora deste em comentar em blogs
    sem movimento?
    sinceramente

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  2. Eu também fui padrinho do meu sobrinho... à força... a sorte é que ele partilha a mesma opinião que tu e eu... assim que não me lembro de ter ido a nenhuma reunião ou lá o que fosse... e além disso acho que passei três meses antes e três meses depois a queixar-me das duas horas perdidas por ter aguentando a missa no dia em questão...

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